Aleixandre Napoleão e Inácio Garganta, analogamente....
- Rodrigo Napoleone
- 6 de nov.
- 5 min de leitura
A obra "A Revolução dos Bichos" de George Orwell é uma alegoria satírica sobre o totalitarismo, em particular o stalinismo, mas seus temas centrais de corrupção do poder, manipulação da informação e traição dos ideais revolucionários são universais e atemporais, podendo ser aplicados a diversos contextos políticos.

Analogia focada nos elementos centrais da obra, permite que o leitor preencha com as suas próprias observações sobre o cenário brasileiro:
A Revolução dos Bichos: Uma Analogia Política
Elemento da Obra | Personagem/Conceito | Mensagem Central (e base da analogia) |
A Revolução Original | Expulsão do Sr. Jones | Um movimento inicial, baseado em ideais nobres (igualdade, justiça, fim da exploração), que promete um futuro melhor para todos. |
Os Porcos (Napoleão e Garganta) | Liderança da Granja | Representam a nova elite política que, após tomar o poder em nome do povo, o corrompe gradualmente. Eles se tornam tão ou mais opressores que os antigos dominadores. |
Garganta | Propaganda e Discurso | O aparato de comunicação e propaganda que deturpa a verdade, reescreve a história, justifica as regalias e a tirania da elite, e convence as massas de que estão melhores do que antes, apesar das evidências. |
Ovelhas | Massa Manipulada | A parcela da população com baixo senso crítico que é facilmente doutrinada, repetindo slogans vazios ("Quatro pernas bom, duas pernas ruim") e silenciando o debate. |
Sansão (O Cavalo) | O Povo Trabalhador | O cidadão dedicado e incansável, que acredita nas promessas e trabalha arduamente (com o lema "Trabalharei mais ainda"), mas é explorado até o fim e, no momento da necessidade, descartado pela elite no poder. |
Os Sete Mandamentos | Leis e Princípios | A mudança e deturpação gradual dos princípios fundamentais (o "Todos os animais são iguais" vira "Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros"), mostrando como a lei e a moral são flexionadas para servir aos interesses dos poderosos. |
Benjamim (O Burro) | O Cético / Intelectual | Representa o indivíduo cético e pessimista que entende a manipulação e a corrupção, mas se mantém apático ou em silêncio, acreditando que nada nunca vai mudar. |
O Final | Porcos e Humanos Juntos | A constatação de que a nova elite no poder (os porcos) se tornou indistinguível da antiga elite opressora (os humanos), traindo completamente os ideais da revolução original. |

Os Porcos no Poder: Aleixandre Napoleão e Inácio Garganta
1. Napoleão: O Líder Autoritário e Pragmatista
(O Chefe do Poder Executivo ou a Figura de Autoridade Máxima)
Característica de Napoleão | Analogia na Política Brasileira |
Monopólio da Força | A utilização de mecanismos de poder (seja a influência sobre aparatos de segurança, seja o controle sobre nomeações em instituições-chave) para silenciar oposição e garantir que as decisões do líder não sejam desafiadas. |
Expulsão de Bola-de-Neve | O ato de eliminar e demonizar opositores (dentro ou fora do próprio grupo) que representam uma alternativa de idealismo ou um desafio à autoridade. O adversário passa a ser o culpado universal por todos os problemas do país. |
Mudança de Curso | A mudança abrupta de promessas ou de ideais fundamentais (por exemplo, abandonar a ética ou o combate a certos vícios em nome da "governabilidade" ou do interesse próprio). O pragmatismo cínico substitui a ideologia. |
Culto à Personalidade | A exigência de lealdade inquestionável acima da competência ou da verdade. "Napoleão está sempre certo" reflete o fenômeno do líder que se torna maior que a própria instituição ou o partido. |

2. Garganta: O Mestre da Propaganda e da Manipulação
(A Comunicação Oficial e os Mecanismos de Justificação do Poder)
Característica de Garganta | Analogia na Política Brasileira |
Reescrita dos Mandamentos | A revisão e deturpação da verdade histórica, legal ou factual para justificar as ações dos líderes. Garganta convence os bichos de que eles "se lembram mal", o que na política se traduz em negacionismo ou inversão da realidade para proteger a imagem do poder. |
O Apelo a Jones (O Medo) | A tática recorrente de invocar um inimigo anterior ou futuro (um governo passado, um adversário político, o risco de "caos") para assustar a população e garantir que ela aceite qualquer opressão, desde que seja "melhor do que o que viria". |
Justificação de Privilégios | A capacidade de usar a retórica e sofismas para explicar por que a elite no poder (os porcos) merece regalias, enquanto o resto da população enfrenta dificuldades. Garganta é o porta-voz que transforma privilégio em "necessidade" vital para a segurança da granja. |

O Povo Trabalhador: Sansão
Sansão: A Força Cega e Descartável da Nação
(O Cidadão de Boa-Fé, o Trabalhador, a Base Social)
Característica de Sansão | Analogia na Política Brasileira |
O Idealismo Inabalável | A crença genuína e ingênua na causa, no líder ou na instituição. Seu lema "Trabalharei mais ainda" representa o sacrifício e a dedicação do trabalhador que se esforça para sustentar o país, acreditando que seu esforço será recompensado pela revolução. |
Submissão à Autoridade | A falta de capacidade crítica, não por estupidez, mas por exaustão, confiança excessiva ou doutrinação. Sansão é a prova de que a exploração é mais fácil quando a massa acredita no explorador. Sua frase "Se o Camarada Napoleão diz, deve ter razão" reflete a obediência cega. |
O Descarte no Final | O momento mais cruel: Sansão, exausto e doente, é vendido para o matadouro em troca de dinheiro para os porcos comprarem uísque. Esta é a analogia mais sombria: o país que explora sua base social (aposentados, trabalhadores, minorias) até a exaustão e, no momento em que ela mais precisa, a abandona ou a descarta em nome do lucro e dos interesses da elite. |
Em essência, a mensagem atemporal de Orwell é um alerta:
Qualquer sistema de poder, mesmo que nasça de ideais nobres, carrega o risco inerente de ser corrompido, gerando uma nova forma de opressão e manipulação.
A analogia com o governo brasileiro (ou qualquer outro) se manifesta na observação de:
1. A percepção de que certas promessas e princípios (como combate à corrupção, melhoria da vida do cidadão, etc.) foram deturpados ou abandonados após a ascensão ao poder.
2. A maneira como a narrativa e a propaganda são usadas para convencer a população sobre o sucesso de um governo, independentemente da realidade percebida (o papel de Garganta).
3. O surgimento de uma nova classe privilegiada que se beneficia das estruturas de poder, enquanto o cidadão comum (Sansão) continua a carregar o fardo.
A força da obra está em permitir que o leitor identifique esses padrões de poder e manipulação em qualquer regime político, seja ele de direita, centro ou esquerda.
O conto se fecha com o tom de desilusão de Orwell: um povo (Sansão) que se sacrifica, convencido por uma propaganda incessante (Garganta), acaba dominado por uma elite que se corrompe (Napoleão), percebendo, no final, que o novo opressor se parece assustadoramente com o antigo.
Espero que esta análise ajude a traçar paralelos profundos com o contexto brasileiro, pois qualquer semelhança não é mera coincidência.








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